Quem tem medo da VOIP?


Ao contrário do que acontece no ambiente corporativo, a voz sobre IP ainda está longe de ser uma realidade para os usuários residenciais. E o problema já não é mais falta de tecnologia, mas sim uma questão de estratégia comercial. Embora a base de assinantes de banda larga só venha crescendo no País (previsão da IDC aponta que serão 1,4 milhão ao final de 2004), não há sinais de interesse por parte das operadoras em mudar a forma de cobrança do tráfego de voz dos clientes residenciais.

As operadoras já têm infra-estrutura para carregar a voz como protocolo IP e o fazem. A Global Crossing, que aluga links internacionais para as empresas de telefonia, diz que a quantidade de voz sobre suas redes de dados aumenta cada vez mais e estima que este acréscimo de tráfego será contínuo durante os próximos 10 anos. Um dos grandes ganhos desta tecnologia é que na comutação feita por pacotes se pode otimizar os recursos disponíveis na rede economizando banda. Quando há interrupção na conversa, por exemplo, mesmo que as pessoas não desliguem, o sistema tem como aumentar sua disponibilidade. Já na telefonia convencional a comutação é feita por circuitos e esta “inteligência” não existe.
É preciso entender que esta economia de custo depende da união da tecnologia e de um novo modelo de negócio. Muito do tráfego gerado até mesmo pelos assinantes residenciais, na rede pública da operadora, já é carregado sob forma de protocolo IP. A operadora já vê este ganho de otimização da rede, mas ainda não acena com a possibilidade de oferecer um novo modelo de tarifação, sob a forma de cobrança de tarifa flat, como acontece nos Estados Unidos.
Uma grande barreira para a chegada da tecnologia ao maior número de usuários é o interesse das concessionárias em ofertá-la. Por que uma operadora iria substituir um modelo de negócio onde ela pode ganhar mais – a telefonia convencional – por outro onde seu faturamento seria menor? Juliana Abreu, analista sênior da Pyramid Research, diz que isso só acontece no momento em que a concorrência é forte o suficiente para que as incumbents tomem esta decisão. São as entrantes que vão iniciar este processo. As concessionárias irão oferecer o serviço defensivamente, afirma. A concorrência ainda não tem poder para incomodar as incumbents. Não vale a pena para elas ofertar um serviço de menor preço para todos os clientes, completa. Esta é uma maneira de nos tornarmos mais competitivos, já que em relação a preço não dá para brigar com as concessionárias, diz o gerente de produtos da Intelig Telecom, Eugênio Pimenta, corroborando com o raciocínio. Muitos concordam que a popularização da voz e de outras soluções baseadas em IP poderá ocorrer quando as operadoras locais visualizarem que, através das NGN, poderão perder um pouco de receita em relação ao tráfego de voz, mas ganhar mais com os serviços agregados que estas novas estruturas vão proporcionar.

MERCADO RESIDENCIAL – A Telefônica, por exemplo, oferece a tecnologia de VoIP ao mercado corporativo. No entanto, quando o assunto são os clientes residenciais, a operadora se limita a dizer que virá a adotá-la no momento adequado para seus clientes. A Brasil Telecom tampouco cogita a possibilidade de voz trafegando pela internet ao usuário residencial, mas já flerta com alguns serviços de telefonia IP, como o tvfone. O produto permite que o assinante fale ao telefone e, ao mesmo tempo, veja o interlocutor pela televisão. Lançado em outubro do ano passado, o tvfone conecta TV e telefone por meio da conexão banda larga ADSL.
Em relação à redução de custos, a diretora de soluções empresariais da Telemar, Denize Meza, diz que não é porque a tecnologia é diferente que o preço vai cair. “O serviço prestado vai ser o mesmo. A tecnologia já mudou de analógica para digital, nós já utilizamos fibra ótica e outras e nem por isso o preço diminuiu. Não é porque a voz vai ser transformada em pacotes que o consumidor vai pagar menos”, explica. Segundo ela, a rede pública da Telemar está sendo modernizada para a oferta de serviços de telefonia IP.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a oferta de VoIP para usuários residenciais já é realidade. Mas a diferença é estrutural, pois, no Brasil, a maior parte dos clientes acessa a rede de dados via ADSL, que é fornecido pela operadora local. Ou seja, o acesso continua restrito e esbarra no mesmo entrave de estratégia comercial já citada. “Nos EUA a infra-estrutura de dados chega ao cliente residencial, em dois terços da base, via operadoras de TV a cabo, que são as responsáveis pela oferta da VoIP”, conta Pimenta, da Intelig Telecom. Esta é uma solução que poderá ser adotada pela Embratel, graças ao negócio entre Telmex e Net. Dessa forma, a operadora terá acesso à infra-estrutura de última milha para oferecer VoIP à pequena empresa e usuário residencial. Acho que pode dar certo. Os usuários já estão familiarizados com a mudança de operadora, vide o que ocorre no mercado de telefonia celular, diz João Bustamante, analista sênior da IDC Brasil. Com as novas regras de unbundling, a utilização da rede das concessionárias pelas novas entrantes poderá resolver o problema da capilaridade.

LEGISLAÇÃO – Quanto à regulamentação, não há problemas. A área é ainda nebulosa, mas a Anatel fornece a licença para operar o serviço, independentemente da tecnologia. A agência não regula tecnologia. Se o serviço de voz é prestado por meio de plataforma IP ou central telefônica, por exemplo, ele deverá estar em conformidade com o regulamento do STFC, explica a Anatel. Pelo lado da operadora, segundo Pimenta, da Intelig Telecom, o que um usuário faz dentro de sua rede não interessa à companhia telefônica. Ele acredita que o Brasil deverá adotar o mesmo modelo americano, que segue o raciocínio de que quanto menos intervenção do órgão regulador houver, melhor será.
Ainda é incerto afirmar que voz sobre IP é uma tendência para o mercado residencial, já que ainda depende de uma série de fatores para tornar-se viável. Além do interesse por parte das incumbents, é preciso geração de demanda suficiente para diminuir os custos dos equipamentos. Analistas, operadoras e usuários são unânimes em afirmar que o preço de um telefone IP ainda é alto. No entanto, por meio da internet e por conta própria, algumas pessoas já descobriram os benefícios da telefonia IP. A largada foi dada.
Desde o final de julho, a Verizon oferece VoIP a assinantes de linhas digitais (DSL) e usuários de banda larga por cable modem nos Estados Unidos. O serviço VoiceWing custa US$ 39,95 mensais. Graças à tecnologia que alia telefonia à internet, os clientes podem escolher um número de telefone em 139 áreas, de 33 estados americanos. Ou seja, se um usuário passa a semana inteira em Boston, a trabalho, mas sua família e amigos estão em Dallas, ele pode escolher que o telefone seja registrado como se fosse de Dallas, para que seus parentes não gastem interurbanos, mesmo recebendo as chamadas em Boston.
Outra opção é assinar uma linha adicional por US$ 9,95 ao mês. Se o cliente tiver filhos estudando em diferentes estados do País, ele registra linhas nestes locais para evitar que eles paguem ligações de longa distância. Assinantes do VoiceWing podem fazer chamadas conectados a qualquer tipo de conexão banda larga e falar de um computador em qualquer lugar com acesso à internet, independentemente de onde eles estejam. O serviço também inclui uma série de opções como identificador e redirecionador de chamadas, voice mail e chamada em espera.
O VoiceWing permite que os clientes façam ligações locais e longa distância nacional ilimitadas nos EUA e para alguns outros países além de oferecer baixas tarifas para ligações internacionais. Uma chamada para São Paulo, por exemplo, custa US$ 0,06 o minuto, enquanto para a Alemanha o custo é de US$ 0,04. Para o uso do serviço, a Verizon dispensa a compra de um aparelho IP e fornece um adaptador que permite que os usuários usem seus próprios telefones para fazerem ligações.

Fonte: Matéria publicada originalmente na edição de Agosto da RNT.

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